
Viemos ao lado do condutor,entrámos as duas na paragem da Sucupira.Ela vinha enxuta nos seus trapos, lavados e secos, mas trapos.
Cheirava a sabão crú,e a pele brilhava de viva.Quis sentar-me à janela como sempre mas ela argumentou que saia antes, como sabia onde saio não faço ideia até agora...mas aparentemente já sou conhecida no percurso.A menina loira da Cidade Velha.
Começámos a tagarelar mal dos homens com piadinhas, e o condutor ria-se, riamo-nos todos.
Partilhámos uma laranja amarga, quase tão amarga quanto ela, vim a saber.
"Lembro-me do dia em que ele e ela foram fazer o filho,lembro-me claramente.Ele trancou-me em casa nessa noite,no quarto...Para quê?Para que não fosse a nenhum lado, por isso!Homens que não têm muitas mulheres...isso nunca vi, aqui em Santiago não há,de certeza, pelo honra de Deus...os nossos filhos nunca brincaram muito, apesar de irmãos,nunca se deram bem, eu bem que tentei aturar a presença dele, de qualquer maneira é filho dele, irmão do meu filho, mas ele nunca reparou no meu sacrifício.
Como me doía.Depois o meu filho veio morrer,agora já não tenho nada para lhe oferecer,nem tenho nada meu...Mas ela veio dar-me os pesames, dois dias seguidos, ele nunca mais o vi."
Ficámos em silencio enquanto a hiace serpenteava a estrada, tentando descobrir que palavras poderiam valer de algo depois deste relato.Ficámos em silencio até ela pedir para descer,chegara ao seu destino, saiu num bermo sem casas nem nada à volta,vi-a subir a ladeira em direcção ao nada.Pedras e vento.
Sabes o nome dela, perguntei ao condutor,eu não, costumo vê-la aí...